quarta-feira, 28 de maio de 2014



UMA ROSA AMARELA

Descansa uma rosa sobre a lápide.
A frase “Aqui descansa uma boa alma” me fez refletir.
Na infância descobri aquele túmulo num dia de finados.
Passava observando as campas onde não haviam colocado flores.
Sentia pena dos mortos que não as recebiam. Haviam caído no esquecimento.
Com uma braçada de flores ia colocando uma flor para cada um que não havia recebido nenhuma.
Obviamente que só “agradava” alguns. Eram muitos os esquecidos.
Um velho túmulo amarelo carcomido pelo tempo me atraiu.
Um nome, sobrenome, data de nascimento e morte.
Fiz as contas... Havia vivido menos que quarenta anos. Completaria quarenta anos dois meses depois da data de sua morte.
A frase sob o nome me chamou a atenção.
Foi uma “boa alma”.
Teria ficado aquele túmulo coberto de flores por anos e anos? Teriam caído muitas lágrimas sobre ele?
Escolhi uma rosa amarela para combinar com aquela cor desbotada.
Decerto o agradei.
Sempre que por lá passava colocava uma flor e tocava de leve aquela campa.
Eu sabia que “a boa alma” não estava ali, mas gostava de colocar uma flor para ele.
Fiz isto por alguns anos e com o tempo deixei de visitar meus “mortos queridos”, mudei de cidade e raramente vou àquele cemitério. Nem sei mais em que quadra se localiza aquele túmulo.
Mas este quadro me ficou desenhado na memória. Foi um tempo diferente que eu vivi. Umas experiências tolas, que talvez não repetisse jamais, mas tudo faz parte deste longo caminho da vida.
As rosas amarelas me recordam muitas coisas, uma delas é o túmulo de um desconhecido que por algum tempo recebeu uma flor de presente de uma desconhecida que só queria alegrar um pouco a solidão de uma campa abandonada.

sonia delsin

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