quarta-feira, 28 de maio de 2014



O CONTADOR DE “CAUSOS”

Na minha infância conheci um contador de “causos” sem igual.
Tantos anos se passaram e não me esqueci seu rosto, suas mãos e sua voz.
O rosto tinha uma expressão inocente. Uma expressão infantil nos olhos que os anos nunca amadureceram.
Uns olhos que contavam junto com a voz suave.
O timbre era baixo, quase inaudível.
Mas ele sabia contar.
Não pedia silêncio e nem precisava.
Quando nos sentávamos à sua volta ficávamos tão quietos.
O que ele tinha a contar era tão interessante sempre.
Aqueles olhinhos inocentes se expressavam divinamente e tinham mel na cor.
Eram uns olhos tão doces, meigos e inocentes que tocava a alma da gente.
Eu amava aquele olhar.
As orelhas de ébano davam-lhe um ar engraçado.
Hoje eu me pergunto se ele faria o papel de bobo da corte em outros tempos.
Pensando melhor, não.
Era um contador de estórias.
As mãos andavam junto com a voz. De cá para lá. De lá para cá.
Se nós ficávamos com expressões assustadas ele sorria um doce sorriso, como a dizer:
─ Não se assustem. São só estórias de Sebastião.
Ah! Velhinho Sebastião! Tantos anos se passaram...
Eternizei você na minha memória.
Não esquecemos as coisas que nos tocam e você me tocou.
Tocou tão fundo que ainda hoje suspiro fundo quando o recordo.

sonia delsin

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