OS REMENDOS
Ele gostava de vestir-se assim. Gostava também de usar alpargatas bem velhinhas.
Dizia que se sentia bem vestido desta forma.
Nós o víamos todo esfarrapado na lida do trabalho.
Mas à noitinha...
...À noitinha ele vestia um belo terno e saía. Adorava cinema e não perdia por nada um bom filme.
Certa vez grudou um chiclete, que haviam deixado no banco do cinema, em seu terno azul marinho de casimira.
Como ficou zangado!
Aos poucos os problemas foram aparecendo em nossas vidas. Passamos por fases bem duras e quando as coisas pioraram mesmo ele abandonou as saídas, o cinema.
Nunca mais vestiu seus ternos e era sempre com roupas gastas que o víamos. Os calçados também ele os usava até quando o lixo seria o melhor lugar para eles.
Nós o presenteávamos com roupas bonitas, calçados modernos, e ele se recusava a usar.
Até mesmo um relógio de pulso que ganhou da mana ele nunca tirou da caixa.
Eu não insistia muito para que se vestisse com roupas melhores porque sentia que para ele liberdade era primordial.
Sabia que ele só se sentia feliz quando conseguia ser autêntico. E era tão carismático. Tinha um brilho próprio.
Na sua simplicidade ele possuía uma visão da vida que muitos homens tão estudados não conseguem alcançar.
Depois de sua morte pudemos ver nas gavetas as roupas nas embalagens, sem uso algum. Os calçados nas caixas. Alguns bonés novinhos em folha.
O relógio ganho nunca lhe foi ao braço e o velhinho estava tão acabadinho.
Hoje este relógio descansa numa gaveta de minha cômoda. Quando o olho recordo o pulso forte onde ele costumava ficar.
Sinto saudades do homem simples que enfeitava minha vida de mil cores. Do homem que me levava para admirar a natureza e era tão convincente que me fazia enxergar além do que eu queria ver.
Sinto saudades de seu olhar de adoração.
Ele demonstrava todo seu amor. Tinha no olhar escritas todas as palavras que eu precisava ouvir.
Não foi à toa que o mundo ficou tão vazio depois que ele se foi...
sonia delsin

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