quarta-feira, 28 de maio de 2014



DA COR DO CÉU


Todos os dias acordo muito cedo e adoro as manhãs que nascem.
Gosto de abrir a porta e caminhar pelo meu pequeno jardim. Sentir o cheiro da manhã.
Aspirar o ar leve cheirando a flor. Parece que as petúnias desprendem mais seu perfume ao amanhecer.
Com o horário de verão ainda está bem escuro quando vou observar o novo dia que nasce.
Posso ver ainda algumas estrelas e gosto de ficar olhando-as.
Como damos uma dimensão tão grande a tudo! Como achamos esta vida material tão importante!
Quando fixo meu olhar numa estrela tento desvendar um mistério que sei não desvendarei aqui.
O seu brilho, sua forma e sua cor estão além do que minha mente pode compreender e meus olhos enxergarem.
Aos poucos o manto da noite vai cedendo seu lugar à claridade de um sol que nem apontou no horizonte e já começa a iluminar esta parte da terra.
O azul, que eu sei que não é azul vai surgindo e eu me sinto tão pequenina perante um Universo que sei que é imenso.
Por que não sabemos nada? Por que aqui necessitamos viver de coisas corriqueiras?
Por mais que tentemos estudar, nos aprofundar nos mistérios não chegamos muito longe.
Podemos nos agarrar ao que as religiões pregam, ao que os cientistas afirmam. Mas responde a quê?
O que aprendemos mais de nós, do mundo?
Eu penso que lá no fundo não sabemos nada. A condição de estarmos aqui é estagiar num lugar onde começamos a nos desenvolver como seres de uma engrenagem imensa.
Se há vida em outros planetas?
Deve haver outra espécie de vida. Outras espécies.
Não tem sentido neste imenso Universo haver vida só em nosso pequeno planeta.
Mas como nada sabemos só nos resta irmos vivendo. Vivendo materialmente. Passando pelos percalços da vida. Numa hora estamos radiantes, noutras tristes. Choramos e rimos. Brincamos e ficamos sérios.
Algumas pessoas parecem não levar a vida a sério. Outras a encaram com muita seriedade.
Acho que o ideal é ir vivendo. Colhendo informações, vivendo as emoções e evoluindo.
Agora o sol tingiu de vermelho as pequenas nuvens e algumas já começam a ficar douradas. Observo mais um pouco e já desapareceu a cor de ouro.
As nuvens escureceram um pouco para um tom de cinza. Vão branqueando aos poucos. Branqueando, branqueando.
O azul já toma conta de tudo. Os pássaros saúdam a manhã que nasce.
Os vizinhos acordam. Alguém liga um carro, outro houve música, uma criança chora ou um cão late.
Já nasceu mais um dia.
Agradeço a Deus por estar aqui entre os homens, por ser esta pessoa que está caminhando um longo caminho em busca de alguma coisa que me eleve para um plano que desconheço ainda, mas pressinto muito maior.

sonia delsin


O CONTADOR DE “CAUSOS”

Na minha infância conheci um contador de “causos” sem igual.
Tantos anos se passaram e não me esqueci seu rosto, suas mãos e sua voz.
O rosto tinha uma expressão inocente. Uma expressão infantil nos olhos que os anos nunca amadureceram.
Uns olhos que contavam junto com a voz suave.
O timbre era baixo, quase inaudível.
Mas ele sabia contar.
Não pedia silêncio e nem precisava.
Quando nos sentávamos à sua volta ficávamos tão quietos.
O que ele tinha a contar era tão interessante sempre.
Aqueles olhinhos inocentes se expressavam divinamente e tinham mel na cor.
Eram uns olhos tão doces, meigos e inocentes que tocava a alma da gente.
Eu amava aquele olhar.
As orelhas de ébano davam-lhe um ar engraçado.
Hoje eu me pergunto se ele faria o papel de bobo da corte em outros tempos.
Pensando melhor, não.
Era um contador de estórias.
As mãos andavam junto com a voz. De cá para lá. De lá para cá.
Se nós ficávamos com expressões assustadas ele sorria um doce sorriso, como a dizer:
─ Não se assustem. São só estórias de Sebastião.
Ah! Velhinho Sebastião! Tantos anos se passaram...
Eternizei você na minha memória.
Não esquecemos as coisas que nos tocam e você me tocou.
Tocou tão fundo que ainda hoje suspiro fundo quando o recordo.

sonia delsin


OS GALHOS EM FESTA


Sempre adorei o silêncio. Sempre.
Quando menina me isolava das pessoas.
Procurava lugares solitários para pensar, sonhar.
Algumas pessoas gostam da agitação, do barulho. Eu já gosto de ambientes calmos.
Fui uma criança privilegiada porque fui criada num lugar maravilhoso. Cheio de recantos que minha alma pedia.
Amava os livros desde muito nova e amava pensar, divagar, viajar...
Aqueles anos tiveram um grande peso em minha vida porque formaram a minha personalidade.
Vivo contando em prosa e verso da terra onde nasci, da terra onde fui criada e não me canso jamais de tocar no assunto.
Para quem nunca esteve lá, para quem não nasceu com uma alma como a minha talvez até fique meio incompreensível esta minha paixão pelos lugares do passado, pela menina que eu fui.
Como o passar dos anos me chegou a compreensão da vida. Fui entendendo o porquê de ter nascido lá, o porquê de ter vivido lá, e o porquê de não me desligar nunca de tudo que se passou.
O passado não volta, mas guardamos com carinho as recordações boas.
E quando existiu tanto encanto!
Como é gostoso fechar os olhos e voar para lá. Rever pessoas queridas que já partiram. Sentir aquele cheiro de capim recém cortado, sentir o orvalho na grama, o perfume das rosas, dos lírios.
As jabuticabeiras floridas.
Nem que eu viva cem anos me esquecerei das jabuticabeiras floridas, as abelhas... os galhos em festa.
As mangueiras, as pêras maduras.
O abiu tão amarelo no alto da árvore, os cafezais floridos.
As borboletas, os beija-flores.
As bananeiras... como aquelas folhas me assustavam à noite. Eram os meus fantasmas. As sombras... fecho os olhos e ainda as posso ver.
As cabras... o fogão de lenha. Aquele som do moinho em atividade.
O barulho do riacho. Os bambuais...
E o silêncio sob as árvores. O silêncio que só os pássaros interrompiam.
Este é o mundo que eu guardo dentro de mim.
Eu precisava dele para guardar para todo o sempre.
Nasci lá, me criei, me mudei. A vida deu tantas e tantas voltas.
Tudo mudou. Mas não dentro de mim.
Tudo está intocado.
É um templo. É sagrado.
Guardo com carinho as minhas horas de silêncio... as minhas asas que nasceram tão cedo.
Ninguém rouba o que guardamos dentro de nós. Nossos sonhos são nossos. E o passado também nos pertence. Ele conta a nossa história.

sonia delsin


AS ANDORINHAS


Há vários anos elas criam sob o telhado de casa. Sei que chegaram de mansinho, gostaram, se instalaram e ficaram de vez.
Elas conseguem passar por um espaço tão estreito entre a laje e o telhado. Um vão tão minúsculo.
São tão bonitinhas e quando os filhotes nascem ouvimos seus chilreios. A toda hora os pais entram e saem em busca de alimento.
Depois de uns dias os filhotes começam a espiar o mundo. Da varanda podemos vê-los com suas capinhas pretas.
Os primeiros vôos são tão inseguros, que fico temendo que caiam porque o meu cãozinho está sempre de olho nelas e se acaso caírem ele as pega.
É emocionante vê-las treinando os primeiros vôos. Chegam a entrar em nossa sala e voar lá dentro.
Quando os filhotes não conseguem entrar pelo pequeno vão, os pais os protegem e os resgatam sem tocá-los, mas orientando-os de uma forma tão especial que chega a nos emocionar.
Depois de alguns dias eles se afirmam e voam gostosamente.
Certa vez um filhote não conseguiu entrar pelo vão e já escurecia. Eu até o peguei quando caiu no chão de cansaço. Tentei colocar pela pequena abertura, mas não consegui.
Não sei como a pequenina ave reuniu forças e voou para cima do telhado de casa. Assentou-se encolhidinha sobre a antena da televisão e lá dormiu, creio eu.
No outro dia acordei bem cedo e fui ver se ela ainda estava lá. Não estava mais.
Não sei se algum gato ou coruja a comeu, se conseguiu voar.
Temos sempre andorinhas voando pelo nosso quintal, assentadas nos fios telefônicos e voando felizes todas as manhãs e tardes.
Sentimos prazer de tê-las conosco porque são tão delicadas e singelas. Elas trazem ainda mais alegria para o nosso lar.

sonia delsin


O PRIMEIRO CONTATO COM A MORTE


Eu não entendia ainda o que era a morte. Nunca antes havia visto um morto e não falávamos sobre este assunto em casa.
Eu mal acabara de completar seis anos e faleceu um grande amigo de papai. Era um homenzarrão de uns dois metros de altura, um alemão.
Nunca acompanhava meu pai em suas saídas e não sei porque naquele dia o acompanhei à casa do amigo falecido.
Saberia descrever com detalhes a sala onde ele foi velado; as pessoas, o caixão, as flores. O homem extremamente pálido dentro daquele caixão.
Logo que entramos na sala observei tudo que me rodeava e por último o defunto, porque estava muito assustada, e, queria ver tudo menos “ele”.
Quando meus olhos pararam sobre aquele rosto agarrei-me com tal força a meu pai e comecei a tremer tanto que ele precisou levar-me urgentemente dali.
Eu me recordo bem que meu pai carregou-me no colo até em casa e colocando-me nos braços de minha mãe lhe falou: cuide dessa menina, que ela está tremendo como uma vara verde.
Eu tremia mesmo incontrolavelmente e dentro de minha cabecinha pensava que a morte era mesmo uma coisa muito estranha.
Dias antes vira aquele gigantesco alemão caminhando com suas enormes pernas. Ele tocara em meu rosto levemente com aquelas mesmas mãos que pouco antes eu vira cruzadas sobre o peito.
A morte me chocara tremendamente e por muitos anos eu iria temê-la.
Acho que aos seis anos ainda não estava preparada para presenciar o choro das pessoas e toda aquela cena do velório.
Não estava nem um pouco preparada para entender a morte e meu pai inocentemente me levou até lá. Não o culpo, em absoluto, porque ele achou que eu já estava madura, ou que nem ligaria talvez. Na verdade não havia passado ainda por uma situação daquelas. Eu era uma criança mais sensível que as outras, ou mais medrosa. Não sei bem...
Não me recordo de tantos falecidos que vi serem velados em toda minha vida, mas aquele me marcou tanto que pareço ainda vê-lo.
Este foi o primeiro contato que tive com a morte e foi tão traumatizante que dele nunca me esqueci.

sonia delsin


SE A AMO?... ADORO!


Hoje me aconteceu um fato curioso.
Uma criança de quatro anos (uma menina linda, que tem todas as luzes do mundo no olhar), me perguntou se eu a amo.
Se a amo? Eu a adoro!
Só a conheço há quatro meses, mas nestes cento e vinte dias não houve um só dia que não bebi seu sorriso.
Que sorriso ela tem! E as covinhas nas bochechas!
É sapeca, é arteira.
Eu a chamo de pimentinha, e como fica brava comigo!
Se eu estou distraída com o trabalho e não a noto ela me cobra com as mãos minúsculas.
Ela me toca, e se eu a quero abraçar, ela corre. Finjo então ignorar e ela volta e se joga para mim.
É sempre assim.
Foi fácil me apaixonar por ela. Bastou ver aqueles olhos e ouvir aquela vozinha ardida.
É ardidinha, pequenina.
Me vejo nela em meus poucos anos. Eu sentia desejos de perguntar às pessoas que amava se me amavam também.
Larissa, pequeno anjo que surgiu em meu caminho.
Sua pergunta me surpreendeu e ao mesmo tempo não.
Eu a teria feito se tivesse encontrado alguém que me desse trela, como lhe dou.
A amo, eu a amo pequenina. Amo pelo sorriso, pelo brilho que irradia.
Amo-a porque me faz viajar no tempo.

sonia delsin

VIDA E MORTE

Eu o conheci há uns doze, treze anos.
(Naquele tempo eu acompanhava meu filho até a escolinha onde ele fazia o pré-primário).
Todas as manhãs eu o via, porque ele morava numa casa bem próxima da tal escola e estava sempre por lá.
Era um jovem bonito, de aparência tão saudável.
Não sei se era solteiro ou já casado naquele tempo.
Só o vi com mulher e filho alguns anos depois.
Nós nos cumprimentávamos porque estávamos habituados a nos vermos com freqüência.
Conhecidos. Era o que éramos.
Depois de um tempo passei a frequentar a igreja próxima de casa e ele também a frequentava.
Ia só. Talvez a mulher se dedicasse ao filho pequeno, ao lar e não lhe sobrasse tempo para acompanhá-lo. Não sei destas coisas e só suponho.
Ele aparentava ser uma pessoa de grande fé e depois de alguns anos se tornou ministro da igreja.
Nunca tivemos um diálogo e se trocamos uma dúzia de palavras neste tempo todo foi muito.
Eu o vi na porta da igreja num domingo e depois de um mês mais ou menos soube de sua morte.
Uma amiga contou-me que ele sentiu umas dores nas costas que se estenderam pelo abdome. Ao fazer os exames foi constatado que existia um tumor maligno no fígado e em poucos dias ele se foi.
Senti um vazio quando soube de sua morte porque a última vez que o vi ele sorria...
Pensei no que é feito de um sorriso que se apaga para sempre.
Para outros recantos ele partiu. Deixou a mulher tão jovem, dois filhos. Vi a neném várias vezes em seu colo. Depois a vi mais crescida. Tão parecida com a mãe!
Que vazio devem estar sentindo em seus corações!
Ele nem fazia parte de minha vida e eu senti.
Senti pela doença ingrata que leva um pai de família tão inesperadamente e deixa viúva e filhos desamparados.
Pensei nos mistérios da vida, da morte.
Pensei que nunca mais ele estará na igreja. Nunca mais irá me acenar com mão quando eu passar por lá.
Já cumpriu seu tempo por aqui e do meu eu não sei. Ninguém sabe. A misericórdia de Deus nos poupa conhecermos de antemão as dores que virão.
Quando eu o via nunca podia imaginar que alguém tão mais jovem do que eu partiria antes de mim.


sonia delsin


OS ESPINHOS... AS MÁGOAS


Mágoas.
Se as guardo elas geram doenças.
Fazem mais mal a mim que as sinto do que aos causadores delas.
Por que não nascemos protegidos deste mal? Vacinados!!! Devíamos ser vacinados pelo menos.
Aos pouquinhos os espinhos penetram o coração e um dia nos damos conta do irreparável mal causado.
Vivemos colocando panos quentes. Que de nada vale.
Queremos passar por cima. Esquecer.
O ideal é perdoar e esquecer. É esvaziar-se disso.
Mas que tarefa trabalhosa e árdua é esta de tirar espinhos encravados.
Enquanto escrevo fui lembrando trechos de minha infância. Lembrei-me bem agora dos cães que apareciam com o focinho coberto de espinhos.
Eles, para demonstrarem valentia talvez, encaravam os porcos-espinhos. E o resultado era uma choradeira danada.
Meu pai com muito jeito e munido de um alicate retirava todos.
Uma coisa tem a ver com a outra?
Pensando bem, tem sim.
Meu pai também pode fazer parte desta crônica estranha?
Pode. Claro que pode! Ele era mestre em retirar os espinhos e alisar as cabeças dos cães até que as dores aliviassem.
Por que não meu pai? Por que não retira os meus? Por que não alisa meus cabelos?

sonia delsin


OS REMENDOS

Desde pequena via minha mãe colocando remendos nas roupas de meu pai.
Ele gostava de vestir-se assim. Gostava também de usar alpargatas bem velhinhas.
Dizia que se sentia bem vestido desta forma.
Nós o víamos todo esfarrapado na lida do trabalho.
Mas à noitinha...
...À noitinha ele vestia um belo terno e saía. Adorava cinema e não perdia por nada um bom filme.
Certa vez grudou um chiclete, que haviam deixado no banco do cinema, em seu terno azul marinho de casimira.
Como ficou zangado!
Aos poucos os problemas foram aparecendo em nossas vidas. Passamos por fases bem duras e quando as coisas pioraram mesmo ele abandonou as saídas, o cinema.
Nunca mais vestiu seus ternos e era sempre com roupas gastas que o víamos. Os calçados também ele os usava até quando o lixo seria o melhor lugar para eles.
Nós o presenteávamos com roupas bonitas, calçados modernos, e ele se recusava a usar.
Até mesmo um relógio de pulso que ganhou da mana ele nunca tirou da caixa.
Eu não insistia muito para que se vestisse com roupas melhores porque sentia que para ele liberdade era primordial.
Sabia que ele só se sentia feliz quando conseguia ser autêntico. E era tão carismático. Tinha um brilho próprio.
Na sua simplicidade ele possuía uma visão da vida que muitos homens tão estudados não conseguem alcançar.
Depois de sua morte pudemos ver nas gavetas as roupas nas embalagens, sem uso algum. Os calçados nas caixas. Alguns bonés novinhos em folha.
O relógio ganho nunca lhe foi ao braço e o velhinho estava tão acabadinho.
Hoje este relógio descansa numa gaveta de minha cômoda. Quando o olho recordo o pulso forte onde ele costumava ficar.
Sinto saudades do homem simples que enfeitava minha vida de mil cores. Do homem que me levava para admirar a natureza e era tão convincente que me fazia enxergar além do que eu queria ver.
Sinto saudades de seu olhar de adoração.
Ele demonstrava todo seu amor. Tinha no olhar escritas todas as palavras que eu precisava ouvir.
Não foi à toa que o mundo ficou tão vazio depois que ele se foi...

sonia delsin


VOU LAVAR A ALMA


Existe um tipo de segredo tão bem guardado que não deve jamais ser revelado.
Querer contar a pessoa não quer.
Mas há horas em que um segredo nos mói a alma. Nos arrebenta todo.
Se o dividirmos... talvez...
Contar ou não contar é uma decisão só nossa.
Podemos deixá-lo para sempre enterrado, no lugar onde esteve todo o tempo.
Mas a sensação de guardar um segredo que nos causou muita amargura é tão destrutiva que não sabemos se sentiremos algum alívio em revelar ou não a alguém.
Não é para qualquer um que podemos revelar uma coisa tão nossa. Existem pessoas que não conseguem ficar de boca fechada e saem contando a todo mundo. Existem pessoas que adoram ter um mexerico para contar...
Existe um ditado que diz: Se o segredo pertencer a mais de duas pessoas já não é mais segredo.
O coração aliviará se o contarmos? Se não, é melhor deixarmos ele guardado para sempre.
Existem pessoas que podem nos ajudar em situações como esta. Temos que medir bem as conseqüências. Ver se vale à pena desenterrarmos coisas que já passaram, coisas que não se modificarão nunca.
Independente de o revelarmos, o segredo continuará sendo sempre o mesmo.
Mas a alma carrega pesado fardo e algumas vezes sentimos a sensação de que devemos dividir um pouco a carga.
“Vou lavar a alma” dizemos ou pensamos e despejamos para fora coisas tão represadas que ao sair de nós já nos lava mesmo.
Algo que parecia ter uma importância enorme parece não ser assim tão importante. Nós é que lhe dávamos uma importância maior a partir do momento que resolvemos guardar conosco.

sonia delsin


UMA DESILUSÃO

Visitando minha terra natal bateu-me uma vontade grande de rever os lugares onde passei minha infância.
Guardo na memória recantos maravilhosos onde samambaias e avencas formavam cortinados verdes.
Sempre reluto em rever aqueles lugares porque sei que tudo está mudado.
Hoje me armei de coragem e fui.
Tudo está tão abandonado que nem tivemos dificuldade em passar a cerca para adentrar na chácara. Ela está toda quebrada mesmo.
O que posso dizer de um moinho que alimentava a vida e hoje é só um casebre em ruínas...
Alguns anos atrás eu estive lá e escrevi sobre o antigo moinho.
O que encontrei hoje foi ainda mais deprimente que da outra vez. Não resta quase nada daquele tempo, só umas paredes que se mantém de pé. Não há mais a roda, o fio de água que movia a roda.
O riacho que passa próximo ao moinho foi canalizado em alguns trechos e um pouco desviado o seu curso.
Eu me lembro bem que o leito dele não corria da forma que corre agora.
Fiquei parada ouvindo o som da pequena cachoeira. Um cheiro forte e desagradável veio me recordar o tempo em que brincávamos nela.
Era um riacho de águas límpidas, rodeado de amoreiras e bambuais.
De vez em quando um de nós era queimado por uma taturana nas folhas das amoreiras.
A pinguela já não existe e conservo-a intacta em minha memória.
O caminho limpo onde abundavam coqueirinhos ao redor, também não existe mais.
Minha mãe e eu ficamos um tempo paradas naquele lugar do passado, com os olhos buscando o que guardamos dentro de nós mesmas.
Cada qual com suas recordações.
O que nos doeu mais foi o abandono que encontramos naquele lugar.
Obviamente que não vimos tudo, só os fundos da chácara porque não havia como atravessar o riacho já que não existe mais a pinguela, nem uma ponte.
Gostaria de ter visto a casa onde nasci, os ranchos onde brinquei tanto, o velho paiol de milho. A casa eu sei que ainda existe e foi reformada. Os ranchos não me informaram se estão de pé. O paiol me parece que foi demolido.
O que vi lá e amei foi uma castanheira imensa. Foi plantada depois que nos mudamos, nós pudemos ver as jabuticabeiras por toda parte e o arvoredo esconde os recantos onde eu adorava estar.


sonia delsin


AS ESTÓRIAS QUE MINHA MÃE CONTAVA

Minha mãe costuma dizer que eu fui filha que mais gostou de seu colo e que mais o aproveitou.
É verdade!
É doce recordar suas mãos quentes suavizando minhas dores.
Analisando friamente o que foi a minha vida, posso dizer que a dor sempre gostou de me acompanhar.
Mas o que vou lhes contar aqui não tem nada a ver com sofrimento. Pelo contrário, tem a ver é só com o amor.
Tive uma infância deliciosa e não canso de repetir isto, cresci livremente em contato com a natureza.
Durante o dia minha mãe sempre estava muito ocupada com os afazeres. Ela trabalhava demais para uma mulher, mas o fazia cantarolando. Uma grande força espiritual a moveu sempre.
As noites eram nossas. Na sala nos juntávamos e ela nos contava estórias.
Não havia um televisor, só um velho rádio, onde ouvíamos radionovelas.
Depois disso ela começava a nos contar estórias. O repertório era imenso.
Eu, que já por natureza viajava para mundos imaginários cresci ouvindo aquelas estórias que alimentaram ainda mais minhas fantasias.
Que tempo magnífico aquele! Os contos de fada carregavam ainda mais as minhas baterias. Minha alma sensível adorava aquilo tudo que eu ouvia. As fadas, feiticeiras, princesas e príncipes encantados tinham corpos próprios e os via caminhando em minha vida, ao meu lado.
Bastava que eu fechasse os olhos e viajava para os contos de fadas.
Hoje em dia costumo me perguntar se fui incentivada por elas a escrever tanto desde menina, ou se escreveria de qualquer forma.
Eu me pergunto se a sensibilidade toda já nasceu comigo. Penso se tivesse tido uma infância diferente se não seria como sou.
Não sei responder a tudo isto com exatidão, mas creio que nasci mesmo assim e qualquer ambiente me tocaria fundo.
Mas que as estórias colaboraram ainda mais para colocar-me mais asas do que as que eu já possuía isto eu não posso negar.


sonia delsin


PEDAÇOS DE MINHA VIDA

Com o binóculo hoje fiquei a observar daqui da casa de minha mãe uma chácara próxima.
Devagarzinho percorri com os olhos cada pedacinho.
Vi o bambual. É o mesmo da minha infância e as taboas sempre estiveram ali naquele mesmo lugar, se me recordo bem.
Vi o gramado banhado de luz e recordei meus pés descalços a percorrer todo aquele território.
Algumas árvores resistiram ao tempo, e outras só guardo na memória.
Recordei o canto das cigarras e a paixão que sempre senti pelo canto delas. Achava-o nostálgico e necessitava ficar sob a árvore a escutar.
Outras vezes estava com o espírito mais sapeca e subia na árvore para buscá-la. Com a mão em concha eu me aproximava e que alegria quando a pegava!
Recordando fui caminhando com meu olhar. Buscando talvez a menina cheia de sonhos que corria por aquelas terras.
Fiquei olhando o cafezal. Está acabado. E as laranjeiras também estão morrendo.
Depois... bem depois meus olhos pararam nos casarões, belas mansões! Estas não fazem parte de minha infância.
Foram construídas num tempo em que eu já não vivia mais aqui.
É uma bela paisagem que vejo daqui. O sol da manhã a deixa encantadora mesmo.
Mas ela está com o destino traçado. Vai se acabar. O proprietário já mandou lotear.

sonia delsin


A REFORMA DO CASARÃO


Passeando em minha terra natal não posso deixar de ver um casarão que guardo n’alma.
Ele está situado próximo a Igreja Matriz, na parte central da cidade.
Desta vez me alegrei em ver que o estão reformando, e ele estava mesmo precisando disto.
Pude notar que a reforma está sento feita com muito requinte.
É um prédio imponente, de grande valor histórico e penso que deve mesmo ser preservado.
Como o portão se mantém aberto para que os pedreiros possam se movimentar livremente, pude observar todo o quintal.
Muito diferente do que guardava de memória. Mas é bonito ainda.
Uma bela piscina toma grande parte do terreno e nos fundos pude notar folhagens e flores diversas.
Ainda sonho entrar em seus cômodos enormes e sonho rever a extensa varanda sombreada.
Será que está muito mudada?
Estas coisas mortas não deviam me tocar. Já passaram, mas me tocam...
Não consigo apagar o que vivi ali, não consigo deixar de me emocionar com as coisas que muitas pessoas consideram sem importância alguma.
Para mim importam e muito. São pedaços de outros tempos, mas fazem parte de minha vida.
Eu me importo com o destino do casarão. Sei que é uma coisa material e que a matéria se deteriora. Tudo se acaba.
Mas as lembranças...

sonia delsin


VELHA JABUTICABEIRA

Quando nos mudamos para esta casa ela era pequenina.
A vimos crescer e como era linda cada vez que ficava coberta de flores!
Os frutos deliciosos nos convidando então!
À medida que ela crescia, meu pai ia podando os galhos. Abrindo caminhos para que, sem dificuldades, alcançássemos os ponteiros, que é onde os frutos ficam mais saborosos.
Recordei agora algo que me toca e me faz rir.
Quando eu me aproximava dos quatorze anos gostava de chegar nos galhos altos e ficar cantando a plenos pulmões.
Era uma fase maluca, uma fase em que eu gostava de me isolar do mundo e procurava refúgio na árvore amiga. Ela possuía um gingado próprio em seus galhos aparentemente frágeis. Não sei se devido as podas que meu pai fez tão engenhosamente, ou se a árvore possuía mesmo esta característica.
Bem, depois estive doente por um longo tempo e não mais consegui subir em seus galhos.
Então ficava no chão esperando as graúdas jabuticabas dos ponteiros que sempre alguém se oferecia para apanhar para mim.
Houve um tempo bom, em que à sua sombra, arrumávamos a mesa e as cadeiras e toda família se unia. Desfrutávamos deliciosos churrascos.
Com sua alegria, meu pai, jogava “truco” com os filhos, genros, sobrinhos e amigos.
Que alegria havia neste quintal naquele tempo!
Como ele gritava alto e todos vibravam de contentamento. Truco! Seis! Pareço ouvir ainda...
Hoje, à sua sombra observo que grande parte (praticamente metade de seus galhos) necessitou ser cortada.
Estava secando nossa velha jabuticabeira.
Sob ela minha mãe conserva ainda suas folhagens e orquídeas.
Olhando-a eu recordo passagens de nossas vidas e penso no significado que esta árvore teve para nós. Acho que foi pensando da mesma maneira que eu minha mãe não deixou que sacrificassem a árvore inteira.


sonia delsin


PAZ

Minha alma sempre ansiou por paz.
Os recantos calmos sempre foram os meus preferidos.
Vou lhes contar agora um pouco o que se passa à minha volta.
Estou sentada num banco de praça de uma cidadezinha muito singela.
Árvores magníficas me rodeiam.
Ouço cigarras a cantar em cada árvore, já que estamos na primavera.
Um sabiá, com seu mavioso canto, faz o fundo musical.
Bem-te-vis vêm quase a meus pés.
Rolinhas estão em toda parte. E pombos do ar.
Os beija-flores se aproximam sem medo. Os pardais com suas comunidades alegres fazem algazarra por aqui.
Tudo é muito limpo e muito organizado.
No centro da praça há um pequeno lago artificial onde peixes lindos nadam alegremente.
Estive observando-os um bom tempo e me deliciando em vê-los nadar em fila indiana e depois contornar as pedras desencontrando-se num nado sincronizado.
Há também um chafariz por aqui jorrando abundantemente sobre pedregulhos.
Ouço as cigarras e os sabiás e as recordações voltam. Cigarras recordam minha infância linda e os sabiás trazem meu pai de volta. Meu pai com sua paixão por esta ave. Meu pai, quando pescávamos e ficávamos quietinhos ouvindo o canto deles.
Custo a crer que estou aqui, absorvendo tamanha paz.
Penso em Deus, nos homens.
Sinto a brisa me acariciando e penso que sou filha desta terra amada, e que nunca mudei. Sou sempre a mesma.
Sou a menina que se sentava aqui para sentir toda a paz que a praça consegue proporcionar.
Ela não mudou muito. Não temos mais o coreto, é verdade. Em seu lugar existe uma concha acústica.
O modernismo chega a toda parte.
Mas os bancos, as árvores. A brisa deliciosa, o canto dos pássaros...
Isto não mudou.
A magnífica igreja matriz bem à minha frente e os casarões antigos.
A maior parte deles conservados e bem cuidados. Não os descaracterizaram com as reformas e eles continuam a contar a história da cidade.
Respiro fundo. É o ar de minha terra. Sinto-me feliz de estar aqui.
Sinto-me em paz comigo mesma, com o mundo.


sonia delsin


UMA ROSA AMARELA

Descansa uma rosa sobre a lápide.
A frase “Aqui descansa uma boa alma” me fez refletir.
Na infância descobri aquele túmulo num dia de finados.
Passava observando as campas onde não haviam colocado flores.
Sentia pena dos mortos que não as recebiam. Haviam caído no esquecimento.
Com uma braçada de flores ia colocando uma flor para cada um que não havia recebido nenhuma.
Obviamente que só “agradava” alguns. Eram muitos os esquecidos.
Um velho túmulo amarelo carcomido pelo tempo me atraiu.
Um nome, sobrenome, data de nascimento e morte.
Fiz as contas... Havia vivido menos que quarenta anos. Completaria quarenta anos dois meses depois da data de sua morte.
A frase sob o nome me chamou a atenção.
Foi uma “boa alma”.
Teria ficado aquele túmulo coberto de flores por anos e anos? Teriam caído muitas lágrimas sobre ele?
Escolhi uma rosa amarela para combinar com aquela cor desbotada.
Decerto o agradei.
Sempre que por lá passava colocava uma flor e tocava de leve aquela campa.
Eu sabia que “a boa alma” não estava ali, mas gostava de colocar uma flor para ele.
Fiz isto por alguns anos e com o tempo deixei de visitar meus “mortos queridos”, mudei de cidade e raramente vou àquele cemitério. Nem sei mais em que quadra se localiza aquele túmulo.
Mas este quadro me ficou desenhado na memória. Foi um tempo diferente que eu vivi. Umas experiências tolas, que talvez não repetisse jamais, mas tudo faz parte deste longo caminho da vida.
As rosas amarelas me recordam muitas coisas, uma delas é o túmulo de um desconhecido que por algum tempo recebeu uma flor de presente de uma desconhecida que só queria alegrar um pouco a solidão de uma campa abandonada.

sonia delsin


O ABSURDO ACONTECE


Dias atrás me contaram uma estória absurda e ela me fez recordar de uma outra ainda mais absurda.
Bem, conto primeiro esta que ouvi por estes dias.
Foi a filha do casal que viveu este episódio que a contou. Cada pessoa que conta um conto aumenta um ponto, mas foi mais ou menos assim:
Os pais tinham uma moto e andavam com ela por uma estrada de terra. No caminho ele perdeu a esposa e nem percebeu. Seguiu em frente por um grande trecho sozinho, até que um obstáculo no meio do caminho o derrubou também. Olhou para todo lado e não viu a mulher em lugar algum. Resolveu voltar atrás e a encontrou chorando.
Perguntou se estava machucada e ela disse não estar machucada, mas magoada porque ele nem notara que ela havia caído.
Pensei que no mínimo ela não o abraçava pela cintura como habitualmente as pessoas fazem quando andam de carona numa condução de duas rodas.
A outra estória que vou contar é tão absurda que nem parece ser verdadeira, mas é.
Tivemos um vizinho há alguns anos que todos os dias levava com o seu “Fuscão” a esposa até o local de trabalho.
Era como se fosse um ritual. Sempre no mesmo horário ela abria o portão, aguardava que ele saísse da garagem, fechava o portão e entrava no carro.
Eles não se falavam e, eu sentada na mureta da varanda os observava.
Eles nem se olhavam também.
Muito empertigada ela se sentava ao seu lado e lá iam os dois.
Eu ficava intrigada com aquele casal. Achava-os tão frios um com o outro.
Eles não tiveram filhos e eu me perguntava se a razão deles serem tão fechados seria esta. Os filhos alegram o lar, fazem o casal conversar, une-os mais.
Eu ficava pensando se dentro de casa eles se falavam, trocavam idéias, beijos, carícias. Afinal para se viver junto é necessário que alguma coisa exista entre duas pessoas.
Mas não sei ao certo como se relacionavam e também nunca ouvi sons de música vindo daquela casa, nem uma discussão. Era uma casa envolta em silêncio.
Dela exalava um ambiente gélido.
Um dia fiquei sabendo e de fonte mais que segura de um fato que ocorreu com este referido casal.
Ele simplesmente a esqueceu em casa. Verdade! Quando ele chegou em frente ao local onde ela trabalhava notou que ela não o acompanhava.
Ela voltou para buscar alguma coisa que havia esquecido dentro de casa e ele se foi sem que ela ainda tivesse entrado no veículo.
Percorreu aquela distância toda (eu acredito que uns dois mil metros ou mais) e nem notou que a esposa não o acompanhava!
Esta estória pode parecer absurda, mas é verdadeira mesmo.
Hoje, este senhor já é falecido e soube que a viúva chorou muito a sua morte.
Cada vez me convenço mais de que debaixo do sol acontecem coisas que a nossa compreensão não alcança.

sonia delsin


QUANDO CHEGA A PRIMAVERA

Hoje acordei ouvindo os pardais.
Levantei-me logo e fui ao quintal para vê-los tão felizes. As andorinhas também esvoaçavam alegremente.
Olhei o céu azul onde nuvens se coloriam fantasticamente com os primeiros raios do sol.
Pensei que a primavera se aproxima e pensei no quanto sou grata a Deus por poder estar vivendo mais este final de inverno.
Desde a infância sempre adorei a primavera. Quando os angicos florescem e tudo é festa na natureza fico encantada.
Os cafezais floridos sempre foram minha paixão. Sinto paz quando o perfume das laranjeiras se espalha pelo ar.
Adoro a natureza, as buganvílias que chamamos de “primavera” colorindo os jardins, os muros, cercas.
Adoro as flores e quando a primavera chega eu me sinto renovada.
Sou parte da terra que amo e meu corpo conhece as estações.
No inverno estive doente e ainda não me recuperei de todo, mas meu espírito está sentindo a aproximação da primavera e sente que há algo novo no ar. O perfume das flores me toca, a alegria que a esta estação espalha.
Sinto que tudo pode virar verdade. A estação me deixa otimista. Vejo a vida por outro ângulo.
Talvez eu sinta isso porque vivi no campo durante a minha infância e pude acompanhar de perto a transformação da natureza nas estações. Ou talvez seja porque sou sensível à beleza, às coisas simples da vida.
Estive observando dia destes os angicos. Estão cobertos de flores e os troncos enegrecidos. No inverno colocaram fogo em toda aquela área e as árvores pareciam mortas. De repente com esplendor surgiram as folhas tão verdes e as flores.
Parece que se esqueceram do fogo que os maltratou.
Li um livro há muitos anos que falava sobre a devastação do planeta e de quando toda a natureza queimava. Ardia.
Com a chegada da primavera as folhas foram aparecendo e a vida ressurgindo, porque existe sempre uma esperança de renovação.
É assim que encaro a primavera. Tudo começando de novo.
A vida ressurgindo, prometendo. Mostrando aos poucos que nunca devemos desanimar, que sempre existe um amanhã.


sonia delsin


UM LUGAR PARA RECORDAR


Tempos atrás estive visitando minha terra natal e senti vontade de rever lugares onde fui feliz, onde vivi aventuras tão gostosas.
Fomos até um local que marcou demais minha infância.
Um local onde pescávamos e fazíamos piquenique.
A família toda ia e passávamos horas muito agradáveis lá.
Revi o bambual. O mesmo daquele tempo? Parece ser o mesmo sim.
As ruínas de uma ponte onde tantas vezes me sentei e fiquei horas pescando.
Havia muitas pedras sob a água e constantemente minha linhada ficava presa em enroscos naquele lugar. Mas valia a pena, porque era um ótimo lugar para pescar. Costumávamos pegar bons peixes ali.
Fiquei parada, ouvindo o silêncio.
De vez em quando um pássaro com seu canto o interrompia, ou uma vaca mugia; ou era um galo cantava fora de hora pouco distante dali.
Como naqueles tempos.
Tudo continua tão parecido. Nem parece que o tempo passou.
Fiquei olhando tudo e recordando a menina que fui.
Parei perto do barranco onde eu me sentava e descia escorregando.
Naquele tempo só aquilo me bastava para ser feliz.
Minha família reunida, lanches para quando a fome chegasse.
A pescaria e os banhos no rio.
Havia lugares razoavelmente rasos e meu pai nos deixava brincar à vontade.
Naquele tempo o riacho tinha as águas tão limpas!
Revi a árvore à da margem do rio. Havia um galho onde eu gostava de ficar “empoleirada” para pescar. Era um bom lugar para se pescar também.
Do outro lado vi uma plantação de eucaliptos. Não estava ali naqueles anos. A vegetação era outra, se me lembro bem.
Quando eu já ia deixar o lugar vi um pescador chegando, descendo o barranco correndo, e pensei que o tempo não volta mais, mas não se apaga nunca o que se viveu.

sonia delsin


FLORES VIRTUAIS


Flores virtuais.
Elas não têm perfume.
Não são suaves ao toque.
Mas encantam tanto quanto nos encantam as naturais.
Desde a mais tenra idade sempre adorei receber flores.
Quando muito pequena acompanhava algumas vezes meu pai ao sítio que tínhamos. Íamos de carroça por umas estradas de terra tão lindas e arborizadas que me toca o coração recordá-las.
Na volta para casa ele parava a carrocinha e apanhava buquês de uma árvore que chamávamos “Santa Bárbara” (não sei se é este mesmo o nome dela) e as entregava para mim.
Eram umas florinhas delicadas; lilases e brancas.
Eu as adorava, e elas murchavam rapidamente.
Não me importava com isso. Era o gesto de carinho que me emocionava.
Algumas vezes eram flores do campo que ele apanhava e eu corria a procurar um vaso quando em casa chegava.
Mesmo murchas eu as achava tão lindas.
Anos mais tarde meu namorado descobriu que eu adorava receber flores e ele vivia me ofertando rosas.
No dia que recebi a primeira flor virtual descobri que ela me emocionou tanto como se fosse uma natural.
O que amo é o gesto de quem oferece.
Adoro o carinho que chega com ela. A lembrança.
O perfume fica por conta da imaginação.
Se a guardo na minha caixa de mensagens é só clicar para vê-la de novo.
Algumas se transformam de botão em flor lentamente e enquanto assisto a transformação penso no milagre da informação.

sonia delsin


OS PRIMEIROS FRUTOS

Parece que foi ontem que a plantamos, como parece que foi ontem que contei sobre a primeira florada.
Agora ela já se cobre de frutos que se avermelham, avermelham.
Já tomamos um saboroso suco e seus galhos estão repletos de frutinhas que se colorem hora a hora.
O pé de acerola está tão alto que não alcanço para apanhar os frutos dos galhos superiores.
Olhando esta arvorezinha eu penso no quanto é belo tudo que me rodeia.
Que generosidade possui a terra. Quanta misericórdia para com os homens!
Ainda outro dia uma sementinha foi plantada e em pouco tempo se tornou uma muda que carinhosamente plantamos.
Hoje ela está lá, orgulhosamente coberta de frutos.
Sementes serão plantadas e essa magia que a semente encerra é que me encanta. Haverá tantas arvorezinhas como esta, tanto quanto se plantarem.
O milagre da multiplicação está em nossas mãos.
O homem não é capaz de criar a vida, mas pode contribuir para que ela subsista.
Está em suas mãos a salvação do planeta ou seu extermínio.
Acredito na humanidade, preciso acreditar principalmente nesta geração que está surgindo, porque senão tudo perde o significado.
Os frutos são promessas de que sempre existe um amanhã. Suas sementes são a continuidade da vida.


sonia delsin


OS TRÊS SE FORAM...

O sanfoneiro se foi.
O gaiteiro e o contador de estórias também.
Os três me fascinavam.
Do sanfoneiro recordo o corpo todo se balançando ao som do instrumento que com tanta maestria tocava.
Do gaiteiro lembro-me que saíam uns sons tão doídos.
Minha melancolia aumentava e ele na boca a gaita esfregava com os olhos em meus olhos.
O contador era dos bons.
O melhor que conheci.
Suas orelhas de ébano não esqueci, e sua boca.
O movimento dos lábios.
Eu não conseguia desviar os olhos dele enquanto contava, e ele o fazia num tom de voz tão brando.
À sua volta, nós ficávamos como que encantados.
Os “causos” eram tão diversos.
Ele colocava tanta ênfase em cada frase e a expressão de seu rosto mudava de segundo a segundo. Vivenciava a estória contada com jeitos e trejeitos.
Aquilo me deixava totalmente encantada.
Meus olhos se arregalavam, coração batia acelerado, o cabelo ficava em pé. Todo meu corpo se arrepiava, principalmente nos “causos” de assombração.
Mas eu queria ouvir mais e mais.
Eles se foram.. mas ainda moram nas minhas lembranças.
É tão bom recordá-los! Fechar os olhos e trazê-los de volta...
É tão bom ter de novo dez, onze ano
s e vê-los em minha vida enfeitando-a toda...


sonia delsin



ESPETÁCULO

O lugar é lindo, não resta dúvidas.
Sinto um frio na barriga quando me aproximo, porque tenho medo de altura.
Quando o vi pela primeira vez me encantei.
Um fio d’água corre bem próximo do lugar onde costumo me colocar para observar a paisagem ao redor. Por todo canto posso ver samambaias e musgo, o local é extremamente úmido.
A água desce por aquelas montanhas de pedra e não a posso ver cair por inteiro. A observação de cima me impede de admirar toda a beleza.
Abaixo de mim ficam as árvores seculares. Imensas árvores. Tão agradavelmente verdes. Os pássaros voam abaixo de mim.
Mais adiante posso avistar a entrada de uma caverna e com o uso de um binóculo posso observá-la melhor.
Os pássaros devem ter ninhos nos despenhadeiros.
Sobre aquelas rochas posso sentir o poder, o encanto, o fascínio da mãe natureza.
A vista é lindíssima e fascinante. Toda a região é encantadora.
A chapada se estende por extenso território e sinto que existe uma energia no ar que se desprende daquelas pedras enormes.
Sentada, encantada, fico observando. Não tão próxima do despenhadeiro (já que sou medrosa) posso sentir o privilégio de existir. De participar desse milagre que se chama vida.
Tanta beleza, tanto esplendor e o homem só a desejar poder, o homem a sonhar cifrões!
Que magnitude! Soberana natureza que nada nos cobra e tudo nos oferece.
Sinto-me tão pequenina observando a beleza ao meu redor quando visito este lugar espetacular.
E sinto ao mesmo tempo que faço parte do coração do mundo.

sonia delsin


UM CASAL DE VELHINHOS

Caminhando pelas ruas da cidade eu vi uma cena que tocou fundo no meu coração.
Num andar lento, próprio das pessoas idosas vinha um casal de velhinhos.
De mãos dadas, caminhando.
Notei que nos olhos deles havia uma luz. Uma luz que está sempre nos olhos dos apaixonados.
Pensei, fantasiei e imaginei.
Aqueles dois velhinhos poderiam ter atravessado a vida juntos, sempre eternamente apaixonados.
Que amor tão grande é esse que faz duas pessoas viverem juntas uma vida e conservar o amor da juventude?
Na maneira deles se olharem e conversarem, eu vi todo o amor que sentiam um pelo outro.
Era algo emocionante de se ver.
Fiquei imaginando tantas histórias para eles.
Pensei que pudessem até ter se conhecido há pouco tempo. Serem viúvos e terem reencontrado o amor.
Pensei que pudessem ser apenas dois namorados.
Mas de tudo que imaginei sempre vi o amor no meio de tudo.
Os dois têm uma capacidade intensa de amar, porque o brilho que eu notei nos olhos deles é um brilho inédito. Algo sublime...
...Quase impossível. Imaterial.
Fiquei emocionada com a cena porque notei que os dois estavam tão compenetrados neles mesmos que nem se importavam com os transeuntes.
Eles estavam no mundinho deles e se completavam.
Os cabelos tão branquinhos. A pele toda enrugada. Mãos envelhecidas, mas unidas. Unidas num aperto forte.
Notei que eram tão fortes na fragilidade da velhice.
Esta vai sempre ser uma lembrança de algo que me emocionou.


sonia delsin


O PALHAÇO


Uma de minhas paixões na meninice era o palhaço.
Esse ser irreverente mexia ainda mais com minha sensibilidade; com minhas fantasias.
Sonhava em ter um só para mim.
Queria que fossem transformados em risos todos os meus choros.
Se eu tivesse um só meu, ele me tiraria o sofrer num estalar de dedos!
Seu colorido, seu nariz vermelho, o sapato... Ah! O sapato do palhaço me deliciava! Ainda mais com os pés trocados...
Quando o circo chegava meu pai me levava.
De mãos dadas subíamos na arquibancada e eu encantada com o palhaço, o olhava vez ou outra, para ver se ele também sorria.
Ele ria seu tímido riso e eu me esborrachava de tanto rir.
Nem me importava se a lona do circo estava rasgada em vários pontos.
Se o palhaço fazia palhaçadas repetitivas.
Que nada! O circo era um reino encantado. Eu a rainha, e o bobo da corte me levava aos píncaros do riso.
Só isso importava: a alegria do palhaço. Aquelas horas de gozo ali.
Para mim o palhaço nunca tirava a maquiagem e para mim ele não representava um papel. Não era personagem. Era a própria alegria incorporada num ser humano.
Cada vez que vejo um circo armado lembro-me daqueles tempos e do quanto os palhaços me fizeram rir. Confesso que até hoje ainda me encantam.

sonia delsin


UM ESTRANHO SONHO

Esta noite eu tive um sonho estranho e ele não me sai da cabeça.
Uma criança que poderia ter sido eu estava presa dentro de um espelho.
Ela corria de um lado para o outro como um animal enjaulado.
Nos seus olhos eu via aflição e beleza.
Era uns olhos cheios de luzes e pedidos.
No sonho eu desejava acariciar sua cabeça, mas minhas mãos não a alcançavam.
Acredito que a menina era a criança que fui aos três ou quatro anos de idade, porque ela era exatamente como a descreveram para mim.
Cabelos longos, castanhos dourados. Olhos interrogadores e intensamente vivos. Corpo frágil e inquieto.
Ela corria de um lado para o outro e eu a fitava.
Queria acarinhá-la, libertá-la daquela prisão e nada conseguia.
Impotente sofria observando-a. Ela se desesperava e eu assistia; até que surgiu em meu sonho uma terceira pessoa.
Era uma velha (talvez a mulher que eu vá me transformar no futuro).
Uns olhos iguais aos que vejo no espelho todo dia.
A menina agarrou-se à velha, fundiram-se num abraço e eu as vi desaparecerem diante de meus olhos.
No espelho vi então a mim mesma na idade atual. Nos olhos... as luzes de sempre... coração tranqüilo. Mãos cruzadas sobre o peito. A sombra de um sorriso brincando em meus lábios. Serenamente me afastei.


sonia delsin


O AMANHECER


Bem cedo já estou de pé.
Não posso perder o espetáculo do sol nascendo.
Não posso ignorar os pássaros que saúdam uma nova manhã.
Não posso deixar de ver o orvalho sobre as flores.
E perder esta brisa fresca.
Quando menina eu adorava acordar bem cedo.
Adorava caminhar descalça e explorar minha terra.
Os cafezais quando floriam... noivas com seus véus a arrastar me lembravam.
As jabuticabeiras... aquele perfume doce das flores... as abelhas. O zunzum.
Os bambuzais rangendo choravam e riam. Quando estava melancólica achava que choravam.
E outras horas... eram ecos das risadas de minha alma.
Os animais me saudavam a cada manhã.
O rancho estava lá a me esperar. Era o meu palco. Nos meus sonhos... quantos papéis a representar.
Bom dia, Dona Tico-tico. Já explorei o seu ninho.
Garoto, seu maroto! Que pelo luzidio... Existirá um céu para os cães?... Se existir, sua alma mora nele.
Avozinha querida, tão frágil, tão forte! As lembranças... a tosse a castigava e é assim que mais me lembro de você.
Terra que amei, porque lá nasci e me criei. Em meio à natureza fui como os bichos que viviam por lá.
Borboletas azuis... quantas! Também fui borboleta...
E irrequieta como os cabritos novos.
Participei ativamente de tudo que me rodeava porque amava cada pedacinho daquele lugar.
Era tão bom acordar ouvindo o galo cantar, o cacarejar das galinhas. As cabras a balir...
Que festa elas faziam para a noninha quando chegava com o capim!
Aquelas manhãs se foram. Morreram no ontem.
As de hoje tem o brilho de outro lugar, de outro tempo.
Ainda a saúdo porque amo cada amanhecer.

sonia delsin


UM ENCONTRO COM O PASSADO

Estou ouvindo uma melodia tão suave que meu coração parece boiar sobre águas calmas, deslizar sobre flocos de algodão.
Não sintonizei nenhuma estação de rádio para ouvi-la, nem coloquei um CD no meu som. Não vem da casa vizinha.
Também não há ninguém cantando aqui em casa ou perto daqui.
Não; é só uma melodia que ouço dentro de minha alma.
Transporta-me ela para um tempo tão distante.
Eu entrava por aqueles corredores e a ouvia. Visitava os dormitórios. O grande salão que servia de refeitório, visitava a lavanderia e as outras dependências.
Meus velhinhos queridos... alguns não deixavam o leito. Outros passeavam em suas cadeiras de rodas, alguns caminhavam pelo jardim ou simplesmente ficavam sentados quietinhos em seus cantos.
Um se dependurava em meu braço e íamos conversando, outro enciumado queria o outro braço.
Sentavamo-nos nos bancos e eu os olhava. A pele toda enrugada, o passo incerto. Os olhos tão vivos. Continham dentro deles histórias longas, sofridas. Tanta vivacidade nos olhos e os corpos tão frágeis, tão envelhecidos.
Eu adorava entrar naquele asilo para idosos, que ficava tão pertinho de casa. Naquele tempo eram irmãs de caridade que cuidavam deles. A voz maviosa que eu ouvia quando lá entrava era de irmã Glória.
Posso vê-la à minha frente de novo, posso ouvir a “Ave Maria” inteirinha. O tempo, parece que não passou.
A voz era bela demais e percorria os corredores. Do jardim se ouvia e também do enorme quintal.
Acredito que aquelas melodias eram bálsamos para as feridas dos “meus velhinhos”.
O tempo passa depressa. A menina que os visitava tornou-se mulher e mudou-se para outras paragens. Eles se foram, um a um. O asilo hoje abriga outros tantos velhinhos. A última notícia que tive de irmã Glória foi que a irmandade a que ela pertencia deixou de existir e que ela voltou a morar com a mãe em sua terra natal.
Às vezes, quando passo por lá, pois que minha mãe ainda mora na mesma casa de outrora, paro no portão e fico olhando o jardim bem cuidado, a gruta no canto esquerdo, os bancos aonde eu me sentava. Sinto um desejo imenso de entrar, mas alguma coisa me impede.
A menina corajosa quer entrar. A mulher teme este encontro com o passado.
Mas vivo prometendo a mim mesma que uma hora vou entrar e com a mesma naturalidade de outrora conversar com os velhinhos de agora. Ficar amiga deles, sofrer por eles. Alegrá-los com minhas conversas, minhas brincadeiras.
Sei que naquele tempo eu era muito inocente e não me dava conta do sofrimento deles, mas alguma coisa forte dentro de mim me motivava a estar sempre lá, a brincar com eles, a dar carinho. Achava a coisa mais natural do mundo conviver com eles.
Não sabia direito essas coisas de abandono que hoje sei.
Temo me derramar em lágrimas com o sofrimento deles, pois quando ouço uma mãe contar que teve oito, dez filhos, que tanto labutou para criá-los, educá-los e prepará-los para a vida e agora está lá há anos sem receber uma visita de um deles, acho muito doloroso isso.
Os velhinhos tentam justificar o porquê dos filhos não aparecerem, sempre os perdoam e esperam pacientemente que eles venham. Nestas horas sinto vontade de buscar este filho e colocá-lo ali à sua frente.
Creio que é por isso que reluto tanto em entrar naquele asilo agora, mesmo sabendo que agora mais que nunca devo visitá-los.


sonia delsin


O MUNDO DA DROGA

Hoje caminhando por uma calçada cruzei com um jovem de uns dezoito anos, talvez pouco mais que isso.
Ele chamou-me a atenção por estar embriagado e quase trombar comigo.
Em poucos segundos pude observá-lo e notar os olhos tão bonitos, a tez amarelada, os braços tatuados, a roupa amarrotada.
O odor de álcool que dele desprendia chegou às minhas narinas e aquilo me chocou.
Pensei nos pais daquele jovem, no desgosto em ver o filho no estado deprimente em que se encontra.
Pensei nos jovens do mundo inteiro que enredam para o caminho da droga e senti grande pesar.
Os meios de comunicação os alertam tanto e mesmo assim eles caem nesta enrascada.
Este é um triste caminho, na maior parte das vezes sem volta.
Impotentes tantas vezes, vemos pessoas se atirando neste abismo e nada podemos fazer.
Quantas pessoas conhecemos, que vivem uma vida tão correta e acabam se desviando dela para seguir o caminho da droga. Seja no álcool, na maconha, cocaína. Tanta coisa.
Já vi rapazes e moças, mesmo adultos se perderem totalmente. Perderem toda a dignidade, a vida.
Penso que só com nossas forças nada podemos fazer. Conselhos muitas vezes até tentamos dar, mas nem sempre somos ouvidos.
Quando o vício já os domina de vez nada podemos fazer a não ser rezar muito por eles.
Vemos pessoas que têm tudo na vida para serem felizes, para terem um futuro brilhante e em vez disso vivem se drogando.
Acho muito triste quando uma pessoa escolhe este caminho e sinto uma tristeza ainda maior quando penso que pessoas ganham tanto dinheiro traficando drogas. Espalhando pelo mundo um veneno que mata aos poucos. Um veneno que destrói a mente, destrói lares.
Senti mesmo grande pesar pelo pobre rapaz e não só por ele, por todos que entram neste caminho. Senti revolta pelos que comercializam a droga, senti uma vontade imensa de poder mudar alguma coisa.
Senti um desejo enorme de me sentar ao lado daquele jovem bonito e lhe dizer: __ Acorda, olha como a vida é linda! Saia dessa enquanto é tempo. Nós nascemos para sermos felizes. O que você está fazendo é um lento suicídio.
Gostaria de poder segurá-lo pelos ombros e olhar bem dentro de seus olhos e dizer tudo que ficou entalado em minha garganta.
Mas na verdade só o que fiz foi escrever esta crônica. Pelo menos consegui desabafar um pouco o que estava magoando meu coração.


sonia delsin


PUDINS... E AMOR

Quando mocinha eu vivi uma realidade diferente das outras meninas de minha idade.
Estive presente no mundo, mas ao mesmo tempo ausente dele.
Uma doença afastou-me do convívio dos amigos, das delícias e loucuras que é a adolescência.
Isso não vem tanto ao caso nesta crônica, mas só estou explicando o porquê de eu ter me interessado pela culinária só depois dos dezoito anos.
Mesmo assim eu só me interessei pela parte dela referente a doces, mais precisamente a pudins.
Eu adorava inventá-los, diversificá-los.
Aprimorava-me neles e sozinha dominei a técnica de preparar pudins deliciosos.
Foi nessa época precisamente que conheci o amor.
O que tem a ver pudins com amor? __ você deve estar perguntando __ Eu explico.
Diz-se, que o homem se prende pelo estômago.
Bem, “ele” provou dos meus pudins e se apaixonou.
Agora, depois de quase trinta anos passados, ainda me diz que se apaixonou primeiro pelos meus olhos. E depois pelos pudins que eu preparava.
Eu rio deliciosamente quando “ele” me diz estas coisas.
O pudim foi só um pequeno detalhe.
Ainda os preparo, não poderia deixar de prepará-los. Se foram eles que me ajudaram a conquistá-lo!
Ó, o nosso amor... tem tanta doçura! Combina com pudins...
Meu doce amor, a nossa história é tão linda. Não perdemos a magia, estarmos juntos ainda nos proporciona tanta alegria.
Ainda gosto de ir colocando pedacinhos de pudim em sua boca e como é bom quando você me diz:
__ Hum, que delícia... ninguém no mundo faz melhor que você. Os seus pudins são incomparáveis, não existem iguais. E o seu amor, tem gostinho de quero mais.


sonia delsin